sexta-feira, 6 de maio de 2016

Prepare-se para a Mulher-Maravilha de Grant Morrison

Por: Hds

Com esse "é hora de termos uma conversa" a Mulher maravilha está até parecendo aquela sua namorada chata!
Lá vem sermão pela frente...

A Mulher Maravilha sempre foi uma das personagens mais ilógicas das histórias em quadrinhos. Seu criador, o inventor William Moulton Marston, encheu sua origem de detalhes incongruentes que fizeram com que a heroína se tornasse uma verdadeira aberração contraditória. Quem melhor definiu isso foi o escritor Mark Waid quando disse que ela deveria ter vindo da ilha paradoxo e não da ilha paraíso.

Alguns personagens de quadrinhos têm uma biografia completamente desconexa, mas com o tempo e os ajustes feitos por escritores competentes, esses problemas podem ser reduzidos. O melhor exemplo disso é o Homem-Aranha. Sua origem tem furos de lógica gritantes que foram ao longo de décadas (mesmo que com atraso) sendo sanados. Com a Mulher Maravilha a coisa não foi bem assim.

Desde 2009 foi anunciado que o escritor Grant Morrison faria algo ligado à amazona, mas somente agora vemos o projeto sair. Morrison é conhecido por inserir temas e discussões ligadas a causas sociais. Em Homem-Animal tivemos ecologia. Nos Novos X-Men tivemos islamismo, preconceito e homossexualidade. E em histórias como os Invisíveis tivemos tudo junto ao mesmo tempo, uma coletânea de mensagens alienativas embaladas em referências pop, bizarrices e muito desespero em parecer "descolado".

Numa entrevista à revista Publishers Weekly, o escritor adiantou que já está trabalhando no segundo volume de Mulher Maravilha: Terra Um. A série deve ter um total de três volumes. Além disso,falou de sua intenção em abordar temas como: feminismo, cultura queer (seja lá o que diabo isso signifique) e transexualismo.  

Logo na capa do 1º número da nova série a Mulher Maravilha aparece acorrentada.
Nem Grant Morrison conseguiu mudar a sina que amazona carrega.
Para sua versão da heroína, Morrison lembrou que ela foi inicialmente criada para inspirar as meninas a serem fortes e decididas, que após a saída do seu criador as histórias perderam o rumo. Declarou que "ela perdeu a noção de cultura alternativa, cultura queer, poliamorosa e feminista daquela que surgia naquela época".

É verdade que a personagem foi criada por Marston para ser uma feminista, mas é muita forçação de barra apontar traços de cultura poligâmica, alternativa ou mesmo queer, cujo conceito talvez nem existisse naquela época.

Aliás, Morrison está sendo bastante conveniente quando cita características originais da Mulher Maravilha como motivação para seus quadrinhos, já que ele mesmo costuma alterar bastante os heróis que escreve quando isso lhe convém. O melhor exemplo disso foram as alterações feitas no personagem Fera dos X-men. O mutante não somente mudou de aparência física, como apresentou dúvidas antes inexistentes sobre sua sexualidade. Aparentemente o escritor escocês só se preocupa em ser fiel à origem de uma figura quando ela possui ideias que batam com suas ambições narrativas, quando não as possui ele simplesmente os transforma naquilo que quer!

Saudade da Mulher-Maravilha de Deodato? Eu não...
De início, os próprios aspectos da personagem criados por Moulton não corroboram nem o antigo padrão da heroína, nem o atual pelas mãos de Morrison. Em primeiro lugar, a ideia de criar uma mulher como figura forte não foi do inventor e psicólogo, foi de sua mulher, Elizabeth Holloway.

Diana foi criada numa ilha onde só havia mulheres que rejeitavam a figura masculina, mas saiu de lá vestindo, ao invés de trajes de luta, roupas curtas nas cores da bandeira americana e uma minissaia.
Quando o piloto Steve Trevor caiu na ilha paraíso ela, por ter ganhado habilidades e sabedoria dos deuses (agindo de modo contrário a sua cultura), chegou a se apaixonar por um homem. Quando finalmente chega a Terra, a princesa ganha uma função nada admirável para uma guerreira treinada desde pequena: se torna uma enfermeira! Nada mais contraditório! 

Moulton queria criar uma heroína feminista,mas colocava-a em várias situações amarrada ou sendo atacada por objetos de formatos "simbólicos".Vai entender!
Grant Morrison já deixou claro que pretende ir além da proposta original para a personagem, e até conversou com Yanick Paquette para que o desenhista evitasse ao máximo representar objetos fálicos nas páginas da revista.

Certo. Este é o ponto em que devemos fazer a seguinte pergunta para o escritor: em que isso vai ajudar a produzir boas histórias? Dá pra imaginar a falta do que fazer de um roteirista que se preocupa com detalhes inúteis como esse, ao invés de se concentrar em entregar o melhor material possível para os leitores daquele quadrinho?

Se Morrison quer realmente uma personagem com elementos femininos fortes por que então chamou logo Yanick Paquette, um artista famoso por desenhar mulheres com apelo em atributos físicos e sensualidade? 

A Mulher Maravilha de Yanick Paquette faz caras e biquinhos no estilo erótico das personagens de Milo Manara,

 isso, com certeza, vai atrair os leitores masculinos. Mas por outros motivos...


Morrison ressalta que há alguns anos atrás "não havia um debate tão intenso destas questões" e que "nós estamos sendo fiéis à origem da personagem".

Por "não havia um debate tão intenso" entenda-se: a DC vendo que o escritor estava empolgado demais acabou botando rédeas nele, não permitindo que alterasse as histórias de modo radical. E na época em que ele propôs as ideias que tinha, as editoras não haviam mergulhado de cabeça na modinha de atirar para todos os lados em que a Marvel e a própria DC se encontram hoje, fazendo média com minorias e modificando seus heróis (pra pior!) em nome do politicamente correto.

Como os editores brasileiros adoram os discursos engajados do autor e os leitores agem como macacos de imitação dos erros que os americanos cometem (chegando a mostrar o mesmo tipo de receptividade para um quadrinho), esta fase da Mulher Maravilha está vendendo bem nos EUA e vai vender bem aqui.


Por mim, prefiro ler somente alguns trabalhos antigos de Morrison e esquivar dessa panfletagem barata recheada de causas "nobres". Se o escritor escocês quer transformar suas revistas num comício para abordar assuntos irrelevantes para esse meio de entretenimento o problema é todo dele, mas eu é que não vou ficar na platéia assistindo.

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