segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Por que tanto leitores experientes como novatos não devem comprar a saga Convergência da DC Comics


Por:Hds


A DC deve achar que juntar heróis numa trama furada ainda impressiona os leitores.


Em fevereiro do ano passado a DC liberou notícias sobre sua nova saga Convergence. Um novo evento com um nome que mais parece o de uma série modinha de livros para adolescentes.

Como qualquer saga envolvendo todo o universo, a série será produzida em 8 edições principais mais 40 títulos que mostrarão eventos separados de cada herói.

A história terá Brainiac capturando cidades de vários mundos, épocas e até realidades diferentes. Até mesmo de lugares que não existem mais! A graça do evento, teoricamente, está em descobrir como os personagens coexistirão (dica: sairão na porrada previsivelmente) e como eles vão resolver o problema gerado pelo vilão.

Como Brainiac conseguiu poder para fazer algo assim? Se ele tinha tanto poder por que não conseguia vencer nem o Superman? Depois de coletar todas as cidades o vilão pôs os heróis para lutarem entre si para que dali saísse o vencedor. A história não passa de uma cópia barata de Guerras Secretas, a recente saga de 2015. Temos até um mundo feito com retalhos de várias terras.

O roteiro básico de Convergence é furado e joga a lógica na lata do lixo. Dizer o quanto da história saiu da cabeça de Jeff King (roteirista de séries de tv que notoriamente não devia estar metido nisso) e o quanto saiu dos diretores da DC é difícil. Afinal, por mais que escritores jurem que não sofrem intervenções dos editores, todos sabemos que são os donos da Warner que decidem a fórmula com que a história será feita.

Seres como Telos tem capacidades que extrapolam o escapismo como manipular quantidades impossíveis de energia.







Temos todos os elementos batidos alí: Telos é o Beyonder/Extemporâneo/Rabum Alal/Antimonitor da vez. Personagens de cada fase da editora (sabe como é,sempre se pode espremer velhas marcas registradas para que rendam mais dinheiro). Mortes reversíveis e acontecimentos sem nenhum impacto real. Já que tudo pode ser convenientemente apagado quando convier à DC. Se matar e trazer figuras do próprio universo já se mostra um recurso desgastado e podre. Imaginem então fazer isso com "realidades" inteiras?

No fim, o grande motivo para agrupar todos esses personagens é fazer com que todos lutem entre si. Exatamente como no ridículo "Battleworld" da Marvel.

Ótimo, então vamos fazer uma pequena recapitulação do que aconteceu desde o início dos Novos 52 até aqui:

Em 2011 a DC resolveu, por pura ganância, jogar num fosso de merda sua cronologia de mais de 70 anos de histórias. Puseram no lugar os Novos 52, um novo começo para o universo que deveria servir para apresentar seus heróis a uma nova geração. O que aconteceu na verdade foi que a maioria das histórias que saíram são um lixo retardado e superficial. Demoliram a linha Vertigo, uma das coisas que nunca deveriam ser tocadas na DC e demitiram a competente Karen Berger. Seus principais heróis ganharam encarnações adolescentes e imbecis. Uma confusão entre editores e roteiristas se estabeleceu nos corredores da editora e ninguém mais se entendia (alguém se lembra da "dupla morte" de Ajax?). As revistas lançadas eram tão ruins que dezenas delas foram canceladas no meio do caminho.

Embora os sites americanos e brasileiros não deem destaque para esse fato, o trio acima anda causando mais estragos na DC do que você imagina. Da esq. para dir: Dan Didio (editor executivo), Diane Nelson (presidente) e Jim Lee( co-editor).


E se você acha que o pior se passou nas páginas das hqs é porque anda acessando os sites de quadrinhos errados (o Omelete é o melhor exemplo...). Uma enorme leva de artistas insatisfeitos com a até então recente (de 2011 pra cá) política draconiana da DC pularam fora da empresa. Sob a direção da arrogante Diane Nelson, a DC deu um belo foda-se para escritores e desenhistas que não gostaram de seu novo estilo e esfregou nas suas caras que: se quisessem fazer cara feia seriam chutados e substituídos com a facilidade de quem toma um copo d'água. Desrespeito com os leitores e artistas e práticas nojentas de negócio. A Warner decididamente resolveu espremer até a última gota suas marcas registradas para lucrar o máximo. Nem que pra isso tivesse que desgraçar anos de trabalhos profissionais de centenas de autores que passaram pela editora à décadas atras. A soma disso tudo é igual à: desespero e desonestidade.

A morte de Wolverine foi mostrada com melodrama e eventismo forçado que no final não surtiu efeito algum entre os leitores.


Quem olha a cultura americana de fora não pode imaginar o que se passa na cabeça de seus leitores, mas chega a ser aberrativa a facilidade com que esses golpes mercadológicos da DC e Marvel fazem sucesso nos EUA. Será que os americanos são realmente tão idiotas? As notícias de sites de lá apontam para um crescimento nas vendas da DC. Ou seja, por pior que sejam estas sagas estúpidas elas vendem! Os leitores de quadrinhos devem ser os consumidores de entretenimento que mais toleram repetição e recursos narrativos abusivos. Vejam a indústria de jogos, eles podem contar histórias extremamente elaboradas e convincentes. Os seriados estão no topo da qualidade nos roteiros mostrados nos canais de tv. Enquanto isso ainda existem fans de hqs que aceitam algo claramente feito para arrancar grana de babacas como a "morte de Wolverine".

Mais importante que criticar sagas irrelevantes como Convergence é expor a tática barata usadas para chamar atenção dos consumidores. Pois é nela que a empresa vai depositar toda a sua capacidade de iludir. Tudo começa com um marketing agressivo. O marketing é crucial, afinal sem uma boa campanha as editoras correm o risco de investirem pesado e amargar prejuízo. De que outra forma se poderia vender algo podre se não fazendo com que ela brilhe atraentemente aos olhos do comprador?

1-Divulgação de Imagens e Teasers.


O que? "Dead no more? "Eu não sei do que diabo isso se trata, mas vou correndo comprar!
Em primeiro lugar a editora (seja Marvel, DC, Dark Horse, Image ou qualquer outra) libera (ou surge através de um "vazamento") uma imagem "virótica". Pode ser um cartaz ou um teaser. No caso do cartaz, ele mostrará somente uma palavra ou frase curta deixando o leitor imaginando do que se trata aquilo. O peixe foi fisgado! O teaser deixa você igualmente curioso com figuras e ações aparentemente desconexas. As vezes apenas silhuetas são mostradas. Engraçado que muitas pessoas achem isso uma coisa excitante, pois para mim, não mostrar nada de um produto pelo qual se vai pagar só gera dificuldade de avaliar a qualidade daquilo e camufla uma intensão de enganar.

2-A Coleta de Reações.


Nada traduz melhor a geração atual de leitores do que os patéticos vídeos de reação no youtube.


O maior erro que um consumidor pode cometer é não tentar enxergar o ponto de vista das empresas. Veja o caso das editoras: elas dão uma pista confusa de algum evento e jogam na internet. Os usuários com suas próprias conexões pagas leem, comentam, espalham a notícia, escrevem sobre ela em blogs (exatamente como eu faço agora) e analisam tudo promovendo um anúncio comercial em escala global. E sabe o quanto as editoras gastam com essa repercussão multiplicada bilhões de vezes (sem que elas movam um único dedo!) em todos os países. Absolutamente nada!


Como eu já disse em textos anteriores, a rede é usada por conglomerados para propagandear e popularizar seus produtos à custa da conexão paga do seu bolso. Algumas delas são tão caras de pau que querem repartir o lucro dessa publicidade como no caso dos Youtubers e a Nintendo. Essas pessoas estão sendo adestradas pelo mercado de entretenimento para reagir a estímulos e não para consumir. Basta ver o que a Disney fez com Star Wars-O despertar da força. Uma massiva campanha mundial e a reação robótica dos espectadores indo ao cinema para ver uma história requentada.

Muitos que seguem consumindo marcas de empresas de diversões explodem em entusiasmo descontrolado sem nem saber se aquilo que se vende é satisfatório ou não. Um exemplo disso é a salva de palmas e os gritos estéricos vistos em conferências da E3 (evento de jogos). Como se os espectadores estivessem num show de uma banda famosa. Muitos dos jogos mostrados se revelam bombas desastrosas.

3-A Revelação Oficial da Trama.


Guerra Civil 2. Criar histórias novas pra quê? A DC e a Marvel sabem que os leitores precisam ter suas cotas de tramas fáceis e saudosismo barato bem estimuladas!


Apesar das proporções que os comerciais tomam e da expectativa artificial que eles provocam, a empolgação infantil acaba em segundos quando é mostrado o plot da saga. Eles costumam ser pobres e repletos de furos de roteiro. A forçação de barra em cima de ações incompatíveis dos heróis e as tramas mal-encaixadas dão lugar ao tradicional debate crítico em fóruns.


Poderia se pensar que com isso o leitor ficasse com o pé atras. Afinal quando uma história é recebida com desconfiança, cinismo, críticas raivosas e memes engraçadinhos no Facebook, a chance dela se dar mal é grande certo? Com os leitores de quadrinhos não funciona bem assim.

As ideias batidas e caça-niqueis estão todas na mesa:"mistério", "alguém vai morrer", "o Capitão América e o Superman vão liderar a resistência", "um vilão poderoso que ninguém sabe de onde saiu surge ameaçando a existência da terra", "heróis vão se arrebentar sem motivo algum, já que estão no mesmo lado", "a cronologia será afetada irreversivelmente" e "depois disto tudo nada será o mesmo".
Mas nem assim a série vai afundar e dar uma lição aos editores imbecis. A teimosia e falta de apreço pelo esforço em conseguir dinheiro trabalhando vão fazer com que os fans adotem mais um golpe editorial.

Sempre deixo evidente que leitores pequenos e adolescentes não são críticos chatos de cinema. Eles jogam, leem, ouvem e assistem o que bem entenderem. E devem fazer isso. Mas esse argumento não é completo o bastante para justificar estupidez. As sagas que li quando criança eram tão bestas e mercenárias quanto as atuais. Só que não eram tão dispendiosas, com dezenas de títulos. Eu mesmo nunca comprei nenhuma completa. Então alguém pode dizer: "não é obrigado comprar todos as revistas". Sei disso perfeitamente, mas veja a qualidade das sagas atuais com roteiros rasos cheios de torneios e batalhas tão banais quanto as de Dragon Ball.

O editor chefe, Dan Didio afirmou que a série Convergence terá títulos para todos os gostos, idades e níveis de experiência de leitura. Mas tentar agradar os fans ao invés de trazer uma história bem elaborada só evidencia a pretensão burra de aumentar vendas atirando para todos os lados. Esmagando a cronologia e tentando colar a pecha da "diversificação" de revistas para todos os leitores (até aqueles que não dão a mínima para quadrinhos e só querem se ver "representados") não passa de uma fração da iniciativa da Warner de moer suas franquias até que não sobre nada além de restos. Tudo em nome da corrida pelas bilheterias com a Marvel. Corrida ela está perdendo há um bom tempo.

Entendo que leitores de hqs novos leem por diversão, para ver seus personagens preferidos lutando. E que os mais velhos tenham curiosidade, mesmo que saibam pesar a qualidade de um bom roteiro. Mas as editoras não pensam assim, elas entendem que se algo vende bem é porque "eles querem mais". Quando você paga para ler porcarias está mandando um recado que será entendido como um "joinha" para que se despeje mais lixo na sua cabeça!

Quando se expõe a questão dessa maneira, o comum é recebermos respostas das mais variadas rebatendo-a. Mas é evidente que algo nisso tudo está errado. Pare pra pensar: por que nunca dentro das listas de grandes quadrinhos de todos os tempos as mega-sagas nunca entram? Se elas são tão boas por que ninguém lembra delas na hora de escolher seu top 10 de melhores quadrinhos? É sempre Cavaleiro das TrevasWatchmen, V de Vingança, Sandman e nada de Crise, Guerras Secretas ou Zero Hora.

Certa vez o escritor Mark Millar disse que "um evento não é um evento se acontece o tempo todo". É a mais pura verdade. Mega-sagas em linha de montagem dão no saco em vez de divertir. A Marvel e a DC não vão parar com elas enquanto o próprio leitor não meter o pé no freio. A melhor arma para isso é o puro e simples boicote. Façam a coisa mais certa nessa ocasião e não assinem embaixo dessa marmelada indigesta! As editoras terão que parar com essas estratégias mesquinhas de publicação e o leitor mandará um recado diferente dessa vez: "trabalhem direito seus vagabundos!".
















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