domingo, 21 de dezembro de 2014


A diferença entre fã e consumidor

Por:Hds



É quase certo que a maioria das pessoas começam a ler quadrinhos ainda bem pequeno, antes dos dez anos. A compra sendo feita através de um parente ou no sacrifício do dinheiro do lanche ao passar em frente a banca de jornal. O primeiro contato com as historias em quadrinhos é sempre interessante. O gosto pelos personagens só aumenta enquanto crescemos e procuramos saber e entender cada vez mais, até devorarmos compulsivamente tudo relacionado aos heróis, aventureiros e figuras infantis das revistas.

Não é comum nos meios de comunicação, entre os leitores ou pesquisadores do tema questionarem sobre o convívio do fã com as hq´s depois da adolescência.

E é através deste texto que quero lançar uma pegunta sobre a postura do leitor já maduro no mercado de quadrinhos.

Se hoje a indústria americana de quadrinhos é bilionária, isso se deve às revistas  e aos leitores que durante as décadas investiram nos heróis mais famosos das gigantes Marvel e DC comics. Movidos mais por impulso do que por critérios, espectadores partem para os cinemas para ver personagens que já possuíam uma grande base de fans instalada e que já esperavam pelos mesmos há décadas.

A criatividade nos títulos anda em baixa e os criadores com cada vez menos liberdade e condições de produzir boas histórias. Mas, curiosamente, os lucros em cima da figura dos super-heróis estão nas alturas. Compra-se tudo ligado ao batman ou homem-aranha muitas vezes sem medir o valor pago. O propósito inicial de qualquer empresa é vender, e boa parte dos fregueses parece ter esquecido que elas usam de todos os meios para conseguir isso.

Desde o começo das publicações no brasil, as editoras vem mostrando pontuadamente um desrespeito quase que debochado pelo mesmo público apaixonado que as sustentam. Decisões baseadas no lucro, mudanças bruscas sem aviso algum, tradução porca, acabamento desleixado e zero de comunicação com seus clientes são só exemplos de algo que se tornou rotina. Ou pior, já se tornou um padrão aceito pela maioria. A resposta dos leitores no geral vem na forma de uma total falta de senso crítico, desinteresse e aversão a qualquer opinião que não seja seu próprio entusiasmo cego.

Existe uma enorme diferença entre o fã de quadrinhos e o consumidor de quadrinhos. Pegue, por exemplo, alguém que seja fanático por Star Wars e tem dvd´s, camisas, bonecos e jogos da franquia. Uma pessoa assim terá a tendência a comprar qualquer coisa ligada ao nome da série, mesmo que o produto seja de baixa qualidade. É bastante óbvio que uma criança acabe gostando de desenhos, filmes e quadrinhos que depois a fará se perguntar por que  gostou tanto daquilo, sendo que eram ruins e claramente feitos para ser um caça-níquel. Mas é natural concordar com a mesma empolgação vinda de um adulto que trabalha e tem responsabilidades? Não seria melhor pro seu bolso agir como um consumidor ao invés de agir como fã?

Quem conhece a popularidade atual da internet no mundo sabe que ela é indispensável no ramo de entretenimento. Mas a verdade que a maioria não percebe, é que as empresas usam a net para divulgar e ampliar o consumo de produtos. A minha geração não sofreu esse efeito. Mas a geração que já nasceu conectada não terá uma noção saudável de consumo, pois será constantemente bombardeada por propagandas e especulação artificial. Tudo isso com o propósito de fazer com que ela corra para as lojas sem pensar.

É necessário que o leitor de quadrinhos no brasil comece a enxergar a si próprio como um consumidor e não somente um fã. Não vejo hoje, como não via antigamente, problemas em ler materiais infantis, roteiros com aventuras escapistas e cheias de violência gratuita. Essas histórias servem bem ao propósito delas, que é de divertir estimular a imaginação. Só não acredito que seja viável a mesma atitude em adultos, que por sinal são realmente o maior publico hq´s, o hábito de gastar parte do salário em revistas sem ter atenção a detalhes de publicação que garantam que os erros das grandes editoras como Panini e JBC não sejam devidamente fiscalizados. Que fique bem claro: sou a favor das empresas atuarem livres no mercado desde que façam um bom trabalho.

O leitor de quadrinhos com suas redes sociais, vlogs e sites vem questionando, aprendendo e evoluindo seus hábitos de consumo. Somente trocando informação entre novos e velhos leitores poderemos moldar um mercado que volte sua capacidade para as necessidades e exigências dos leitores.

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