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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

REVIEW Nº2: O LEGADO DE JÚPITER


Por: Hds

Brandon e Chloe são os filhos-problema em O Legado de Júpiter

Título: O Legado de Júpiter
Autores: Mark Millar (roteiros) e Frank Quitely (desenhos)
Preço: R$ 45,00
Formato: 17x26 cm, capa dura, 140 páginas, colorido e papel couché

ATENÇÃO: O REVIEW ABAIXO CONTÉM SPOILERS

Em 1932, Sheldon Sampson, um filho de empresário falido recebe um estranho chamado a uma ilha através de sonhos. Com a ajuda de seu irmão Walter e de seus amigos, ele vai até a misteriosa ilha de onde retornam com superpoderes. Munidos desses poderes, ajudam a América a enfrentar guerras e crises preservando seu país. Agora, após décadas de luta, se veem tendo que conviver com uma sociedade entregue à problemas econômicos e desiludida.

Desde o início da história Sheldon Sampson, chamado de Utópico se vê descontente com a situação dos EUA,que atravessam uma grave crise pós quebra da bolsa de 1929. Sem esperanças resolve atender ao chamado sobrenatural. Com ajuda de um capitão mercenário chega até ilha e retorna transformado no maior herói da terra. O que aconteceu na ilha só vai ser realmente explicado futuramente, já que este é apenas o primeiro encadernado da série.

A ilha visitada pelos personagens tem um formato peculiar que vai ser explicado posteriormente.
O mote do quadrinho começa realmente quando surgem os filhos desses mesmos heróis que retornaram. Sheldom e sua esposa Grace tiveram Chloe e Brandon que também nasceram com habilidades. 

Aqui também temos o real contraponto da história. Os filhos do maior guardião da terra são dois completos inúteis! Chloe é uma garota burra, mimada e complexada. Só se importa com grifes e marcas famosas às quais possa associar seu nome para ganhar dinheiro. Vive drogada em festas com seus amigos e primos superpoderosos. E igualmente bisonhos.

Brandon é um rapaz cínico que alimenta um rancor pelo fato de nunca ter recebido atenção e reconhecimento do pai. No rastro da fama e prestígio dos pais, ele se ocupa de reclamar de sua vida, encher a cara e fechar contratos com empresas pela sua imagem. Ambos os filhos do Utópico não passam de celebridades idiotizadas.

Cabe aqui um breve esclarecimento o padrão de heroísmo apresentado na revista. 

Existe uma tendência nos quadrinhos de super-heróis (mais forte na Marvel que na DC) de "repensar", questionar ou "refletir" acerca da função dos heróis nos dias de hoje. O embrião dessa ideia, até onde posso perceber, foi inserido em Watchmen pelo velho rabugento e "gênio ocultista" dos quadrinhos Alan Moore. O autor supostamente "esfregou" na cara de artistas, críticos e leitores a noção de que super-heróis nunca poderiam viver no mundo real sem interferir em sua história política. Foi aclamado e tido como visionário. Mas a verdade é que se olharmos com atenção para a proposta da série, é fácil descobrir que sua mensagem não tem utilidade alguma.

As aventuras dos quadrinhos, desde o começo, foram criadas para ambientar o leitor num mundo figurativo, cheio de iconografias e  idealismo direcionado por valores simples. O que Watchmen faz é tentar refutar o funcionamento de ideias e fatos históricos reais, dentro de uma ficção. Ou seja pura perda de tempo! Seria o mesmo que questionar o porquê do Superman não interferir no caso Watergate (caso em que o ex-presidente americano Richard Nixon foi pego cometendo um crime) ao invés de "perder tempo" perseguindo o Brainiac. A resposta é bem clara: por que aquelas eram histórias em quadrinhos, feitas para entretenimento. E não um documento do FBI! Sendo assim, Watchman se mostra uma boa história em quadrinhos. Bem desenhada e tecnicamente impecável. Mas, como já ressaltou o artista John Byrne, sem sentido. Um exercício inútil de contestação!

Atualmente temos vários artistas que fazem parte dessa "corrente" de revolucionários que revogam e condenam o papel tradicional dos combatentes da justiça. Entre eles temos: Grant Morrison (sempre ele...), Warren Ellis, Brian K. Vaughan, o próprio Mark Millar entre tantos outros. 
Esse é o motivo pelo qual vemos, com cada vez mais frequência, heróis que não lutam contra vilões, não possuem o menor conceito de valores, são depressivos, deslocados, criminosos até e se queixam mais do que praticam atos de bravura. A figura do super-herói em sua mais brilhante essência está sendo substituída por vigilantes preocupados com causas sociais. Quando não, esses personagens se mostram um bando de palhaços imprestáveis que não realizam nada, não ajudam ninguém. Em suma, não fazem nada para justificar a alcunha de Super-Heróis!

Eles não lutam com o Coringa ou o Duende Verde, mas com empresários e magnatas satânicos. Eles não vão ao espaço enfrentar os Skrulls, preferem ajudar os sem-teto nas ruas. Não patrulham a cidade como o cruzado de capa de Gotham City, e sim empreendem uma viagem de "auto-conhecimento" pelo país para "rever seus conceitos" sobre a quem devem atender de verdade. Ou seja: o que temos aqui não são super-heróis dos quadrinhos, são voluntários e assistentes sociais tediosos! Não se parecem em nada com heróis de quadrinhos. E é exatamente nesse padrão que vários dos tipos de Legado de Júpiter se encaixam.

Chloe deixando seus pais "orgulhosos" depois de uma overdose

A trama segue depois da apresentação dos filhos de vários heróis, onde muitos deles se escondem para não lutar ou se machucar, enquanto os mais velhos fazem todo o trabalho. Walter, o irmão do Utópico (Sheldon Sampson), começa uma discussão sobre a utilidade das ações de seu grupo. Afirmando que são um desvio de assunto, perto dos problemas que a américa enfrenta. 

O Utópico é usado como um espantalho para uma argumentação tendenciosa e fácil para se duvidar da crença dos leitores no heroísmo puro e simples. Tanto, que para o personagem sobra o sermão de apoio ao governo e que os dotados de poderes devem servir ao povo através da lei. Isso faz com que o Utópico seja imediatamente visto pelos leitores atuais, que não se identificam com suas ideias de moral e justiça, como um "velho teimoso e antiquado".

Enquanto seu irmão tenta fazer com que Sheldon contradiga suas ações, o Utópico é visto pelas costas, entre os outros superpoderosos, como um nacionalista caduco e sem visão da realidade. É notório que as respostas que herói dá para seu rival de sermão são propositadamente pobres de argumento. 

Millar move seus personagens como peões para efetuar seu debate de ideias.

Walter decide atropelar seus demais companheiros motivado pelo debate com seu irmão e se reúne com membros do governo para por em prática tudo que planeja para os EUA. Apresenta uma solução mágica para ajustar a economia do país e sanar o mal do desemprego e  pobreza, em apenas quatro anos. Isso é que é ficção, certo? Ele acaba levando outra bronca de Sheldon e resolve se aproximar de seu filho, Brandon, para influenciá-lo

Tenta consolar o melancólico filho do Utópico com um papo furado relativista de que: os mais velhos não tem vantagem alguma em experiência e que cometem erros idiotas assim como os jovens. Por isso eles não teriam moral para orientá-los. Vendo que consegue a atenção do rapaz, começa a envenenar sua mente para que cometa crimes que serão especificados ao longo da trama.

A arrogância e confusão de Brandon vão gerar eventos dramáticos no mundo dos heróis de Jupiter's Legacy.

Depois do levante de Walter, praticamente todos os demais combatentes se voltam contra o Utópico. Nesse ponto percebemos um típico caso de forçação de barra ao qual os leitores do roteirista já devem estar acostumados. Como é que a maioria se manifestou contra ele, se já o tinham como um exemplo de conduta durante décadas? E ao ponto de fazerem o que será mostrado mais à frente, num evento dramático da história? Somente a mera discordância não teria um resultado tão controverso. Uma bela escorregada de Millar. O motivo para Walter se mostrar um traidor genocida (depois de décadas) é raso e mal-construído. Outro ponto curioso é o fato de nenhum outro herói no mundo inteiro partir em defesa de Sheldon Sampson. Onde eles estavam?

A perseguição de Walter e seu grupo gera situações contrárias para Brandon e Chloe. O primeiro está diretamente envolvido em mortes e destruição. A segunda tem de fugir para não ser enquadrada pela nova lei marcial imposta pelo seu tio. 

O que se segue também deixa dúvidas dentro da aventura. Nove anos se passaram depois que Chloe foi obrigada a fugir junto com seu namorado, tendo em vista que sua família foi literalmente desfeita. Mas como é que eles conseguiram sumir num planeta vigiado por seres superpoderosos? Bastava que algum inimigo fizesse uma varredura em supervelocidade ou usasse visão telescópica. Sem falar nas outros inúmeras capacidades de rastreio. Isso foi um furo no roteiro ou será detalhado mais adiante?

Apesar do governo ditatorial de Walter seguir devastando o país, Brandon continua obedecendo as ordens do tio (talvez por influência dos poderes mentais) e sendo consumido pela dúvida de se aquilo que fez foi correto. A mudança de atitude de Brandon também sugere uma possível ruptura brusca, pois ele acabou passando de um cara insatisfeito para um assassino. 

Durante esse tempo Chloe, afastada de tudo, resolve levar uma vida comum para não ser detectada. Até o ponto em que, por força de um acontecimento do qual não vou falar para não estragar a surpresa, é arrancada de seu esconderijo e entre em conflito com os soldados à mando de Walter. 

Mesmo sendo tosca e inconsequente Chloe está do lado do bem e vai buscar vingança contra aqueles que a perseguiram.

O mais interessante de se perceber até esta etapa da história, é a situação em que os personagens "do bem" chegaram para ter de sobreviver sendo cassados. Os superpoderosos em massa aderiram ao governo tirânico de um semelhante e os poucos que sobraram tiveram que demonstrar uma atitude heroica tardia. Seria mais natural se eles tivessem procurado agir dessa maneira desde o começo. E não tentar remediar a podridão em que se encontram depois de tudo estar arruinado.

Como O Legado de Júpiter é uma série contínua, o arco de histórias analisado neste review cobre somente as cinco primeiras histórias. Acredito que muitos dos detalhes e mistérios dela (como os personagens que foram à ilha ganharam poderes? Ou quem é o casal de criaturas que surge na ilha?) serão mostrados adiante nos próximas sequências. Mas essas edições, é claro, já dão o tom e a ideia do que o quadrinho tem pra dizer. Por enquanto, ela não conseguiu surpreender tanto como outros trabalhos da mesma dupla criativa.

ROTEIROS: As histórias de Mark Millar, como de costume, tem um ritmo ágil e são bem equilibradas entre cenas de repouso e ação. Millar domina a técnica narrativa com que se apresenta a maioria dos quadrinhos chamados "vanguardistas" de hoje: cheios de ação, rápidos e abordando temas pesados. O ponto negativo vai para algumas extrapolações cometidas pelo autor. Pela pose forçosamente "ultra-bacana" com que seus tipos atuam, por vezes munidos de estrelismo e frases de efeito. Mas o que mais incomoda é a onipresença de temas políticos que aparecem de forma irritante nos seus quadrinhos. Muito desse discurso  é tendencioso e dispensável.
DIÁLOGOS: São bem escritos no que concerne à precisão e carga de informação, mas muitas vezes são tematicamente viciados, contém referências pop bestas e não contribuem para o discorrer da trama.
DESENHOS: Frank Quitely mostra sua capacidade de produzir desenhos cinéticos e com aquela sensação de "tensão suspensa" como só o artista consegue fazer. Algumas vezes é notória a queda de qualidade em algumas páginas, mas nada que tire a beleza de seu traço. Mesmo que as capas das edições exibam um detalhismo que não se vê no miolo da revista. Um ponto negativo pequeno (sem importância pelo fato de ser pertinente ao estilo do desenhista) é que alguns personagens ficam um pouco parecidos uns com os outros e, às vezes, suas figuras de jovens ficam com tantos traços no rosto que parecem uma casca de árvore seca de tantas rugas. No mais as ilustrações de Quitely ainda estão acima da média.
ACABAMENTO: É justamente neste ponto que a revista gera brigas e chama mais atenção. A Editora Panini vem oferecendo uma nova linha de encadernados com preços nada agradáveis. Uma inclinação que se tornou evidente quando os volumes em capa cartão e Lwc começaram a custar R$28,90. O Legado de Júpiter chega em capa dura, papel couché e preço exorbitante de R$45,00. Uma postura burra e nociva vinda da maior editora em volume de publicações no Brasil. Por que a Panini está indo deliberadamente contra a lógica de reduzir custos para o bolso do leitor, tendo em vista o precipício em que estamos hoje com a economia esfacelada? Os leitores vão opinar das mais diversas maneiras, mas a verdade é que a editora está tomando o caminho do suicídio editorial.
CUSTO-BENEFÍCIO: Precisa dizer alguma coisa? Acho que sim! Com dezenas de revistas mais baratas e eventos tomando o interesse dos leitores, não fica difícil imaginar que dar R$45,00 num título desconhecido (apesar de muito aguardado) não é nem um pouco obrigatório. Se é pra ler histórias de super-heróis temos sagas da Marvel e DC saindo agora mesmo nas bancas. Encadernados de fases novas e clássicas (como as do Batman de Lendas do Cav. das Trevas e a Coleção Histórica Marvel). Volumes de séries da Vertigo em capa cartão e Lwc baratas e com histórias excelentes. Os nomes Millar e Quitely pesam, mas o preço surreal deste livro  pesa mais ainda! E se tratando de uma série que tem de se provar, recomendo que os consumidores mais prudentes boicotem o encadernado e esperem pelas famosas promoções das mega-livrarias.

EXCELENTE     
ÓTIMO               
BOM                   
MEDIANO         
REGULAR
FRACO
RUIM
PÉSSIMO

quinta-feira, 24 de março de 2016

REVIEW Nº1: MS MARVEL NADA NORMAL



Por:Hds




Título: Ms. Marvel-Nada Normal
Autores: G. Willow Wilson (roteiros) e Adrian Alphona (desenhos)
Preço: R$18.90 (capa cartão) e R$26,90 (capa dura)

ATENÇÃO: O REVIEW ABAIXO CONTÉM SPOILERS

Kamala Khan é uma adolescente muçulmana que tem problemas para conviver com a cultura de sua família e parentes. Motivada por atritos com seus pais, Kamala resolve fugir para uma festa dos seus amigos de escola quando é pega pela "névoa terrígena" que libera poderes latentes. Daí em diante vemos a jovem enfrentar as dificuldades de entender e conviver com seus dons.


Ms Marvel já começa iludindo os leitores pela sua capa, temos uma figura de uma garota com expressões sérias , quase adultas (embora aquele sinal no rosto a deixe mais com cara de baranga). Nela, a garota aparece com roupas de uma adolescente normal e também cheia de adereços de sua cultura nativa. Muitos leitores jovens devem ter pensado; "Putz! Que foda!". Mas a verdade é que; esta capa que foi feita propositalmente para causar impacto deixando uma impressão "legal" entre crianças e adolescentes, não passa de uma cópia de uma capa do desenhista Gary Frank para Supergirl nº1 de 1996. Vejam abaixo:






Garota com expressão fechada, enquadramento da boca para baixo, roupas descoladas e adereços (skate, gargantilha, pulseira e anel)? Confere!


Sem perder tempo somos jogados numa cena típica de "choque de culturas". Debaixo de piadinhas bestas Kamala admira um hambúrguer, mostrando que apesar de ser proibida de comer carne ela é apenas uma garota normal.






Somos então apresentados ao inútil núcleo de amigos burros e irritantes da personagem, agindo como figurantes de um seriado babaca de tv americano. Cheios de comentários banais e moldados em arquétipos baratos, os amigos da protagonista são totalmente dispensáveis para o desenrolar da história. Só estão lá para encher linguiça. Destaque para Zoe, a amiga/troll de Kamala. Ela é o mais fiel retrato de uma patricinha insuportável. Grosseira e cínica, ela faz o papel da americana loira-burra que menospreza hábitos estrangeiros por considerá-los "exóticos". Apesar disso Kamala a admira, num claro exemplo de de adolescente sem auto-estima, mas com "grande potencial para a bondade e tolerância".


Aliás, a própria Kamala não passa de mais um tijolo na construção do biotipo irritante do herói acanhado e hesitante. Até quando vamos ver personagens fracos e vacilantes em filmes, livros, séries, jogos e demais peças de entretenimento? Será que alguém ainda aguenta ver mais um Charlie Brown, Peter Parker, Shinji Ikari (Evangelion) ou qualquer outro notório perdedor depressivo? Tipos assim além de chatos são inverossímeis.

As cenas entre familiares servem somente para mostrar como seus pais são obtusos e tacanhos. Para situar o leitor dentro de um ambiente familiar previsivelmente problemático. O pai de Kamala (Abu) é imbecilmente punitivo e injusto. A mãe dela (Ammi) é um tábua sem opinião e somente concorda com tudo que o marido decide, reclamando e proibindo. Seu irmão (Aamir) é um vagabundo que se esconde atras de uma postura viciada de religioso extremamente dedicado para não ter que trabalhar. O problema aqui não são as personalidades defeituosas da família da heroína. Defeitos de personalidade, se bem trabalhados, tornam os personagens até mais interessantes. Desde que sejam vistos realmente como defeitos e sejam colocados dentro de um contexto aceitável. Em Ms. Marvel, a família de Kamala está lá para nos inserir no mundinho dos pitorescos costumes da cultura muçulmana e fazer uma falsa exposição dos seus problemas.

Outra presença constante é sua amiga Nakia, que serve como um papagaio no ombro de K.Khan balbuciando regras e dogmas da cultura/religião de seu povo, para servir de contraponto óbvio as suas escapadas. Nakia seria igual a uma beata rabugenta ou uma religiosa carola sempre criticando e reprovando tudo que sua jovem amiga faz.





Na sequência da festa vemos que os garotos e garotas são sempre superficiais e construídos de maneira preguiçosa. Adolescentes não são exatamente criaturas mentalmente prodigiosas, mas todos abaixo da família de Kamala são propositalmente estúpidos para passar a ideia de: "eles são idiotas e descuidados porque são ocidentais". Após a expansão da "névoa terrígena" (me sinto um idiota tendo que digitar isso..), não fica explicado o porquê de somente Kamala ter manifestado poderes.

No terceiro número a escritora apela para o já completamente batido esquema de "temor pela revelação da identidade secreta". Isso é tão sem criatividade como são as mortes nos quadrinhos. Mais à frente, um pouco do exemplo de como a religião islâmica pode ser gentil e graciosa com as mulheres; Kamala e Nakia vão a uma mesquita onde nem sequer podem entrar pela mesma porta que os homens. Também não podem se sentar ao lado deles para assistir um culto. Ajoelhadas na mesquita, ouvem todo tipo de baboseiras que nenhum jovem no mundo ocidental perderia tempo ouvindo: castidade, o "perigo" do álcool e das "tentações" do mundo moderno. Kamala como uma boa heroína, sempre contestadora, perturba a calma do ambiente com seus questionamentos inconvenientes. Quanta ousadia da nossa heroína, heim?





Na escola, a Ms Marvel de última hora, passa por incríveis "confusões e trapalhadas" para esconder sua identidade. Quando vai em busca de ajuda e conselhos de seu amigo Bruno acaba presenciando um assalto forjado e é baleada. Nesse momento você até poderia imaginar que a revista seguiria um caminho mais sério, mas acho que nem o leitor mais inocente seria tão tapado a ponto de acreditar nisso. Até porque Ms. Marvel é um quadrinho "teen" com humor em boas doses, o  que não significa que esse humor seja bem feito ou engraçado...




Após uma sequência de lições de moral do tipo: "seja você mesmo" descobrirmos que Bruno tem sentimentos por Kamala. O roteiro está lotado de furos e situações mal-explicadas. Por que fazer um drama com o tiro levado pela protagonista se a situação seria resolvida de forma tão escapista? Por que se dar ao trabalho de esconder a identidade para se transformar na frente de policiais? Por que sua família vive em Nova Jersey? Somente para falar mal do modo de vida americano, usar palavreado estrangeiro e citar trechos pinçados do Corão? Tirando isso ainda temos truques de antecipações narrativas velhos como fazer com que Kamala "sonhe" em ser igual a uma super-heroína e poucas páginas depois ela realmente se tornar uma. Bem conveniente, não acham?

A ultima história (ainda bem!) coloca a nossa heroína de nariz côncavo no resgate de Vick (irmão de Bruno) que foi aprisionado por uma gangue liderada por uma figura misteriosa: o inventor. Depois de fracassar na primeira tentativa, Bruno ajuda Kamala a se preparar para invadir o covil do inimigo e resgatar de vez Vick. O arco de cinco edições termina com um vilão sendo apresentado, mas não qualquer vilão e sim um com cabeça de calopsita (?!?).

Ler Ms. Marvel do número 1 ao 5 foi o suficiente para me deixar irritado. Essa revista levou diversos prêmios, incluindo o Angoulême (prêmio de melhor série). Como justificar isso? É bem simples, existe uma onda de favorecimento da cultura islâmica nos estados unidos atualmente. Ela se infiltrou nas redações de jornais, nas tvs, na internet e também nos quadrinhos. Propõe a ideia falsa de que os costumes islâmicos são ordeiros e pacíficos.

A roteirista do título é G. Willow Wilson, uma americana convertida no islamismo que não possui uma carreira pregressa nos quadrinhos. Ela somente foi convocada para escrever Ms. Marvel por entender sobre o islamismo o suficiente para entregá-lo de maneira convincente para o público de quadrinhos ocidental.

Antes de escrever este review li outros textos analisando a revista e notei opiniões como: "Ms. Marvel não é panfletária", Ms, Marvel é um quadrinho corajoso" ou Ms. Marvel é importante para derrubar os mitos sobre os muçulmanos". Em primeira instância, a afirmação de que ela não é panfletária é mesmo verdadeira. Pois Ms. Marvel não é só panfletária, é bem pior que isso!

Pare para pensar um pouco, se você quisesse fazer uma história para influenciar crianças e adolescentes como faria isso? Fácil, ao invés de empurrar goela abaixo sua agenda ideológica evidente, você teria muito mais êxito lançando um quadrinho superficial, apresentando uma heroína que de cara já se mostra deslocada, não do seu bairro ou da sua classe na escola, mas do próprio país onde vive. De cara mostrando um personagem como uma vítima oprimida pela falta de compreensão da maioria. Colocá-la para fazer piadinhas e ironias com as repressões aberrativas da sua cultura para fazer parecer que está sendo contestativa. Recitar passagens "leves" do Corão, dando a falsa noção de "religião de paz".

Ms. Marvel não é um quadrinho corajoso, é insidioso e come pelas beiradas. É mais pretensioso e perversivo do que se pensa. Justamente por ser abobalhado e inocente vai atingir um número maior de leitores fazendo com que uma geração de crianças cresçam acreditando que a maior parte da cultura e religião islâmica são admiráveis, algo bem longe da verdade! A autora da revista quer nos acomodar numa realidade que não deveria ser transposta sem a responsabilidade de conhecimento prévio de história e política para antecipar discursos e ideologias nocivas. E se sabemos que nenhum leitor jovem precisa ter essa noção prévia para gostar de super-heróis, fica mais claro ainda que assuntos como esses não deveriam constar em produtos de entretenimento. São colocados ali para manipular ideias, mesmo que sejam de crianças e adolescentes desavisados. O lugar desse encadernado de Ms. Marvel é na lata do lixo.

ROTEIROS:Tramas banais, sem criatividade. Histórias apinhadas de clichês. Situações de conflitos e subversão"teen" baseadas na velha fórmula batida de ocultar a identidade. Narrativa escapista e rasa. O clichê de: "não consigo controlar meus poderes". Estereótipo cansativo do herói tímido e inexperiente.
DIÁLOGOS: Superficiais e não ajudam a avançar na história. Repletos de ironias e piadas ruins sobre super-heroísmo. Forçado e cheios de referências inúteis aos costumes de fora dos EUA. Potencializam o caráter irritante de certos personagens.
DESENHOS: Os traços de Adrian Alphona são toscos, preguiçosos e pouco detalhados (repare nos rostos feitos com traços e pontos). Disfarçados com uma boa pintura e sombreamento digital. Figuras deformadas e desproporcionais (repare em alguns figurantes).
ACABAMENTO: A Panini lançou a edição em dois tipos: uma em capa cartão e outra em capa dura com poucas histórias e papel do miolo em LWC. Nada incomum, edição no padrão típico dos encadernados da editora.
CUSTO-BENEFÍCIO: Existem dezenas de histórias sendo publicadas no Brasil que visam o nicho infanto-juvenil com qualidade real e preço acessível. A maioria delas são os mangás da própria Panini e da JBC (fora os milhares de super-heróis nas bancas...), sendo assim, comprar esse volume é um desperdício notável de dinheiro.

EXCELENTE    
ÓTIMO                
BOM                    
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